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Archive for the ‘Liberdade de expressão e liberdade de imprensa’ Category

Sindicato publicou nota condenando abordagem aos profissionais e cobrou audiência com GovernadorUma barreira de policiais militares posicionada logo depois das catracas aguardava quem saía de dentro da estação Sé do metrô, em São Paulo, no último dia 7. Era Dia da Independência e lá em cima, em frente à Catedral da cidade, um protesto contra o Governo de Michel Temer estava prestes a começar. Uma família que ia ao Shoppping Light, na região, foi retida para revista, um garoto que estava fazendo turismo também. Mas os alvos preferenciais para averiguação eram fotógrafos que iam cobrir o protesto.

Um deles, que já trabalhou nas principais redações do país e hoje atua comofreelancer, foi ameaçado de ser levado para uma delegacia. “Eles ficaram perguntando onde eu morava, por que estava com capacete, por que era carioca e estava indo a um protesto em São Paulo”, contou. Quando um grupo de jornalistas chegou ao local da abordagem, foi liberado. Outro parado foi Vinicius Gomes, 19 anos, que trabalha no coletivo independente Afroguerrilha. Era a segunda vez que ele tinha contato direto com a polícia desde o afastamento definitivo de Dilma Rousseff. No dia 31 de agosto, foi agredido em uma abordagem, levou cinco pontos na cabeça e teve seu equipamento de trabalho jogado no chão e destruído.

 Denúncias de abuso policial contra fotojornalistas não são novidades. Um fotógrafo que preferiu não se identificar contou que em 2014, depois de ser alvo de uma ação violenta da polícia e aparecer em algumas reportagens, passou a ser perseguido, inclusive com ligações e intimidações em sua casa. “Eles estacionavam a viatura do lado de fora e ficavam algumas horas na porta”, disse.Também ficou conhecido o caso do fotógrafo Sérgio Silva, que perdeu um olho após ser atingido por uma bala de borracha da PM em protesto em junho de 2013 – em uma decisão controversa, a justiça ainda o considerou culpado pelo incidente.

Com tudo isso, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo publicou uma nota em repúdio à ação da polícia nos últimos dias e pediu uma audiência com o Governador Geraldo Alckmin (PSDB). Por enquanto, não obteve nenhuma resposta. Para o diretor do Sindicato, Alan Rodrigues, o caso de Gomes que teve seu equipamento quebrado, ilustra bem a escalada de violência contra profissionais da imprensa. “Hoje, o perfil do fotojornalista mudou, é difícil ver alguém que trabalha fixo em um jornal. Geralmente são freelas e profissionais que atuam em mídias alternativas. Esses têm sido alvos preferenciais. Claro que ninguém merece esse tratamento, mas acreditamos que a polícia os vê como ativistas e não trabalhadores, aí a abordagem é pior ainda”, diz Rodrigues.

Gomes conta que no dia 31, após de ter sido vítima de socos e chutes, foi levado para uma delegacia, depois para um pronto-socorro onde recebeu atendimento médico, e, por fim, novamente para delegacia. Tudo começou por volta das 21h e só foi terminar lá pelas 4h da manhã. Neste ínterim, ele contou ter ficado mais de 40 minutos de pé, virado para a parede, enquanto os advogados acionados pelos fotógrafos que viram a abordagem da polícia não chegavam à delegacia. “No final, tivemos que assinar um B.O não criminal e fomos liberados”, contou.

Agora, o coletivo Afroguerrilha está fazendo um crowdfunding para comprar novo material para Gomes e, no domingo, uma ação conjunta de fotógrafos irá vender fotografias no vão do Masp para arrecadar dinheiro. “Acho que até por eu ser negro, sou um alvo mais visado. Durante todo o tempo em que estive na delegacia percebi que o meu tratamento era diferente de outro fotógrafo que foi levado junto comigo. Eles ficavam me chamando de neguinho, perguntando se eu nunca tinha sido preso por fumar um baseadinho”, diz Gomes. Ele conta que a presença de fotógrafos negros em cobertura de protestos é cada vez maior. “A gente está conseguindo comprar nosso equipamento agora e isso, na verdade, é maravilhoso. Seria ótimo se cada jovem negro tivesse uma câmera para registrar nossa realidade”.

Nesta terça-feira (6), a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), órgão do Ministério Público Federal, disse que vai monitorar as ações das policias do Rio de Janeiro e de São Paulo durante as manifestações de forma geral. Rodrigues disse que nunca havia presenciado uma situação tão tensa como a que está acontecendo em São Paulo entre policia e jornalistas. “Cerca de 30 fotógrafos já entraram em contato com o sindicato para relatar agressões”, conta. Procurada pelo EL PAÍS, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo não se pronunciou sobre o caso de Vinícius Gomes ou sobre a nota publicada pelo Sindicato até o fechamento desta reportagem.

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Do Porta INJET – Rede de Jornalistas Internacionais

Jornalistas, ativistas digitais e outros defensores da liberdade de expressão no mundo todo podem ser nomeados.

Index on Censorship Freedom of Expression Awards  homenageia indivíduos que lutam para se expressar em condições difíceis e perigosas.

O Index convida o público, ONGs e organizações de mídia a nomear indivíduos em quatro categorias: artes, campanhas, ativismo digital e jornalismo.

Os vencedores serão levados para Londres para participar da cerimônia de premiação em abril de 2017. Também serão convidados a participar de um programa para treiná-los e ajudá-los a ampliar seu trabalho para a liberdade de expressão.

O prazo de nomeação vai até 3 de outubro.

Para mais informações (em inglês), clique aqui.

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Carta Capital entrevista Marisa Lajolo
Publicado em Observatório da Imprensa

Íntegra da entrevista concedida à CartaCapitalnº 716, 21/9/2012, da qual a edição da revista aproveitou trechos. Marisa Lajolo é doutora em Letras e professora titular do Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp

Alguns dizem que censurar o livro de Monteiro Lobato (em discussão por aqui nos últimos dois anos) é uma forma de recalcar o racismo ao invés de enfrentá-lo. Seria essa uma forma de combater o racismo apenas no âmbito simbólico, uma forma de a sociedade lavar as mãos censurando um livro enquanto deveria investir na promoção de igualdade social concreta (via políticas públicas)? A senhora concorda?

Marisa Lajolo – Discutir as denúncias relativas a Caçadas de Pedrinho me parece uma boa chance de se discutir leitura no Brasil. Respeito quem acha que a obra é racista, mas também espero que respeitem opiniões contrárias. Em matéria de interpretação de arte, não acredito em verdades absolutas. Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Bentinho tinha ou não um caso com Escobar? Os deuses mitológicos presentes em Os Lusíadas ofendem o cristianismo? A questão é contemporaníssima: a arte pode ironizar valores religiosos? Tais questões não se resolvem com leis. Resolvem-se com diálogo e com qualidade de educação, para o que são necessários professores bem formados e bem remunerados.

O que deve ser feito com uma literatura com traços preconceituosos, no caso, racistas? Ela deve ser modificada como objeto-documento, preservada na íntegra, oferecida com ressalvas? Como lidar com casos como Huckleberry Finne Caçadas de Pedrinho?

M.L. – Deve ser preservada na íntegra. Se acreditamos – como acredito – que livros articulam-se intimamente ao momento social em que foram escritos, alterar textos – ainda que com as melhores intenções – é muito ruim. É como retocar uma fotografia para “corrigir” o passado. A Rússia stanilista fez isso, “apagando” Trotsky de inúmeras fotos. Conheço a edição de Huckleberry Finn em que a palavra “nigger” foi substituída pelas palavra “slave”. Me pergunto que a diferença de sentido a substituição da palavra acarreta…

Ao contrário de Twain, que era um defensor da igualdade racial, um antirracista notório, Monteiro Lobato é reconhecidamente um autor com tintas racistas – para alguns, era um eugenista. Isso faria do livro uma situação distinta da de Twain?

M.L. – Minha opinião é diferente. Não acho que a posição assumida pelo narrador lobatiano manifesta atitudes que possam ser consideradas “racistas”, isto é, não creio que a obra literária lobatiana expresse ou propague atitudes de agressão e de desamor a negros.

Em todo o mundo, tais demandas tendem a ser aceitas e as obras, modificadas ou ao menos vendidas com uma ressalva. O Brasil está tentando se inserir nesse cenário globalizado, em respeito a legislações e acordos internacionais dos quais faz parte?

M.L. – Não acho que seja universal (“em todo mundo”) a tendência a “corrigir” obras literárias. Mas mesmo que fosse – judeus e prostitutas excluídos da obra de Shakespeare, escravos negros expulsos da Bíblia e das Mil e Uma Noites, homossexuais banidos da obra de Dante – eu seria contra. Também discordo de incluir “ressalvas” (como notas de rodapé, anotações & similares ) em livros. Elas manifestam uma vontade disfarçada de “gerenciar” a leitura, impondo certos significados (e proscrevendo outros) aos leitores. Mas as atuais – e a meu ver equivocadas – denúncias ao racismo de Lobato são uma boa chance para uma pesquisa sobre leitura: crianças e jovens que leem Caçadas de Pedrinho, ou outras obras infantis lobatianas, opinam que o livro incentiva atitudes racistas? Leitores afrodescendentes sentem-se ofendidos quando leem as histórias do Sítio? Que tipo de cidadão forma a frase final de Caçadas de Pedrinho, na qual Tia Nastácia, tomando o lugar de Dona Benta em um carrinho, proclama: “Agora chegou minha vez. Negro também é gente, sinhá…” (p.71). Será que a voz da própria Tia Nastácia, no livro, não é mais convincente do que rodapés e advertências?

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Por Carlos Brickmann | Em Observatório da Imprensa

Há várias maneiras de colocar em risco a liberdade de expressão: a policial, a econômica, a judicial, a violenta. Todas estão sendo aplicadas no Brasil: algumas, que de tão escancaradas beiram a desfaçatez, são defendidas mas não aplicadas (coisas como o tal “controle social da informação”, ou o sistema chavista da Ley de Medios – tão colonizada que até o nome está em castelhano); outras, por serem mais utilizadas longe dos grandes centros, merecem acompanhamento esparso – assassínio de jornalistas, empastelamento de jornais adversários, pressão direta sobre anunciantes; há as condenações de jornalistas incômodos, que acabam ganhando a causa mas depois de muitos aborrecimentos e amplos gastos; e a que hoje é a mais usada de todas, combinando ações legais e pressões econômicas para calar quem diz o que, na opinião dos inimigos da liberdade de imprensa, deveria continuar secreto (e eles conhecem as vantagens do sigilo).

Há coisas incríveis acontecendo: uma delas, a ordem de prisão do diretor-geral do Google no Brasil, Fábio Coelho, por desobedecer à ordem de tirar do YouTube vídeos contra um candidato a prefeito de Campo Grande. Como diz Marcelo Tas, “prender diretor do Google por causa de vídeo político no YouTube é como punir vendedor de asfalto por acidente em rodovia”.

O caráter intimidatório da medida ficou claro quando o mesmo juiz que determinou a prisão revogou a medida, no dia seguinte, por considerar a atitude do diretor do Google de pequeno potencial ofensivo. Se o potencial ofensivo era pequeno, por que houve a prisão? Se a prisão era necessária, por que houve a rápida libertação? O Google, evidentemente, não pode estar acima da lei; mas a aplicação da lei deve levar em conta a função exercida pela empresa. Uma biblioteca que tenha livros proibidos pela Justiça não gerou o conteúdo, nada tem a ver com ele: apenas o coleciona. Se obteve os livros legalmente, que é que fez de errado?

Outro caso interessantíssimo é o do jornalista Cristiano Silva. Há alguns dias, um juiz comandou a apreensão de seu livro Operação Ouro Negro – História do milionário assalto aos cofres da Prefeitura de Catalão durante debate na Universidade Federal de Goiás. Em outras palavras, ao discutir temas de interesse da comunidade, a universidade foi invadida para a apreensão do livro que vinha sendo discutido. Pior: o jornalista foi detido por desacato à autoridade e levado à delegacia. A obra trata de problemas ocorridos na gestão do ex-prefeito Nagib Elias, e o juiz que determinou a apreensão foi quem extinguiu o processo montado com base na Operação Ouro Negro da Polícia Federal.

Detalhes: nem o jornalista nem seu advogado tinham sido informados da proibição do livro. Mas as ameaças já vinham de antes. Certo dia, Cristiano foi abordado na rua por várias pessoas, na cidade de Catalão, em Goiás. Um homem disse aos companheiros, em tom irônico: “Ah, mete bala na cara desse vagabundo. Vamos fazer picadinho dele, igual fizemos com o livro”. Outro completou: “Tem de acertar no olho para não estragar a pele”.

Há casos mais antigos: a pressão constante sobre o jornalista Lúcio Flávio Pinto, do Pará, que desafia as famílias que comandam o estado; a censura que já perdura há dois anos contra O Estado de S.Paulo, para impedi-lo de publicar informações sobre o império da família Sarney, conforme investigações da Polícia Federal na Operação Boi Barrica; o processo que este colunista sofre de um ex-secretário tucano, que deixou o governo de São Paulo para defender uma empresa que se opunha a interesses do governo de São Paulo.

Mas o caso mais emblemático, agora, é o do Blog do Pannunzio.

 

Guerra suja

O jornalista Fábio Pannunzio, da Rede Bandeirantes, é sério e competente. Abriu um blog em 2009 e, de lá para cá, jamais aceitou ofertas de patrocínio. Paga as despesas com dinheiro do próprio bolso, tirado do salário de repórter.

Que é que fizeram contra ele? Aquilo que a Igreja Universal do Reino de Deus tentou fazer contra a repórter Elvira Lobato: sufocá-la com imenso volume de processos (no caso, espalhados por todo o Brasil, para obrigar a repórter a gastar fortunas com viagens e advogados, e ao mesmo tempo reduzir sua produção jornalística, por falta de tempo). Só que Elvira Lobato trabalhava como repórter da Folha de S.Paulo, que bancou as despesas, denunciou as manobras da Universal e transformou o caso num foco permanente de suas reportagens.

Pannunzio foi processado inúmeras vezes, sem êxito. Mas, em todas elas, teve de perder tempo, contratar advogado, gastar com documentação, viajar até o local dos processos. O objetivo, claro, era este; pessoas que se julgam atingidas em sua honra não entram com processos cíveis, já que honra não se mede em dinheiro (a não ser algumas pessoas, que já têm até a etiqueta de preço afixada). Quem tem a honra atingida entra com processo-crime, exatamente por considerar que sua reputação não tem preço.

Pannunzio foi processado por gente das mais diversas ideologias, partidos, interesses. A gota d’água foi o processo que lhe é movido pelo atual secretário da Segurança de São Paulo, coronel Ferreira Pinto, herança de Serra para Alckmin: o secretário do governo tucano quer uma indenização monumental de Pannunzio. E o repórter decidiu desistir do blog. “Escrevo depois de semanas de reflexão e com a alma arrasada”, disse Pannunzio, “especialmente por que isso representa uma vitória dos que se insurgem contra a liberdade de opinião e informação.”

 

O céu das deusas

Sim, é Hebe Camargo numa coluna de jornalistas. Hebe provavelmente o negaria, mas foi jornalista na maior parte de sua carreira. Um de seus primeiros programas de TV, O Mundo é das Mulheres, era um jornalístico; seu famoso sofá foi palco de um sem-fim de entrevistas, que talvez muitas vezes não nos mostrassem o pensamento político-ideológico do entrevistado, mas sempre deixavam claro como vivia, como se comportava, do que gostava, do que não gostava.

Hebe sabia comunicar-se; e por isso políticos importantes a acompanhavam cuidadosamente. Quando levou a seu palco um bolo com moscas artificiais, mostrando que algumas coisas podiam mudar mas as moscas eram sempre as mesmas, despertou a ira do poderoso cacique baiano Antonio Carlos Magalhães, que conseguiu vetar as manifestações políticas da grande apresentadora.

E que grande pessoa! Alegre, solidária, feliz, de uma simpatia contagiante, sempre sorridente, conquistava quem quer que a conhecesse. E, se o caro colega não a achava competente, tente apresentar um programa ao vivo. Hebe o fazia – e com seus 80 anos ultra bem vividos.

Poucos acompanharam os primeiros tempos de Hebe, a Moreninha do Samba, cantora de sucessos como “Andorinha Preta”, toada de Breno Ferreira Hehl (“Eu tinha uma andorinha que me fugiu da gaiola (…)”. Um dia, alguns amigos lhe pediram que cantasse. Hebe recusou: não cantava há muito tempo e achava que, com o passar dos anos, já não tinha voz. Foi irredutível. Mas, discretamente, reatou seus laços com os velhos sucessos. E um dia convidou os amigos para ouvi-la. Depois, cantou de novo na TV, com o auditório acompanhando.

Hebe, como Sílvio Santos, foi um monstro da comunicação, um marco entre os apresentadores da TV brasileira. Não deixa herdeiros. É pena – mas quem conseguiria substituir, nos palcos terrenos, aquela que está entre as deusas do céu da comunicação?

 

Essencial

Não é para todos: só para quem se interessa por Filosofia e tem capacidade para acompanhar o raciocínio de um mestre. Rolf Kuntz, jornalista e filósofo, um dos grandes repórteres e ensaístas de Economia de nossa imprensa, professor da USP e editorialista de O Estado de S.Paulo, um dos fundadores do Jornal da Tarde, lança Fundamentos da Teoria Política de Rousseau, criada como dissertação de mestrado na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.

A dissertação foi apresentada em 1970; de lá para cá, sua importância foi sendo cada vez mais reconhecida, até que a Editora Barcarolla decidiu lançá-la em livro, em coedição com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Este colunista não entende nada do tema; mas sabe que, se é de Rolf Kuntz, é um livro muito bom. Se um dia escrever algo menos bom, será o primeiro a criticar-se.

 

Que delícia!

De acordo com uma importante coluna esportiva, de um jornal de circulação nacional, houve um casamento coletivo no estádio do Corinthians, lá onde será a abertura da Copa do Mundo. A coluna atribui ao presidente da CBF, José Maria Marin, muito entusiasmo “ao ver 62 casais consumando o matrimônio (…)”

Parece que pensam que “consumar o matrimônio” é sinônimo de “casar”. Já imaginaram, 62 casais consumando o matrimônio ao mesmo tempo, em público?

 

Que grossura!

O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, do PCdoB paulista, foi procurado em Londres por uma repórter doDaily Telegraph, que lhe perguntou se ele tinha intérprete. Rebelo perguntou se ela falava português. Não, não falava. E Rebelo: “Então é a senhorita que vai precisar de intérprete”. O curioso é que Rebelo já esteve na China comunista, cujo regime inspira seu partido, e lá nunca exigiu que nenhum cidadão chinês falasse português com ele.

 

Que boa ideia!

Lobão, que já lançou um livro de grande sucesso, publica em fevereiro uma nova obra, Manifesto do Nada na Terra do Nunca, abertamente antipetista. Assim que a notícia do lançamento foi publicada na coluna Ancelmo Góis, em O Globo, o Ministério da Cultura liberou a captação de R$ 1,9 milhão pela Lei Rouanet. Lobão mandou carta ao Ministério da Cultura recusando o dinheiro.

 

Como…

Foi um erro de digitação, claro. Numa coluna importante de um jornal importantíssimo, faltou o “t” na palavra “captar”. Ficou engraçado – mas não tanto quanto ocorreu quando o Diário Oficial de um grande município paulista informou que o prefeito havia autorizado um pedido, e faltou uma letra.

 

…é…

De um jornal impresso, de circulação nacional, noticiando ameaças do governo do Irã a outros países:

** “Por essa razão, entraremos em confronto com ambas as partes e definitivamente estaremos em conflito com bases americanas se uma guerra”

O papel está caro. É preciso economizar palavras.

 

…mesmo?

De um dos maiores portais noticiosos da internet:

** “Paulo Goulart é internado para tratamento de câncer em SP”

É internado, não: o excelente ator foi internado há cerca de dois meses. O próprio portal, mais tarde, reconheceu a falha na informação.

 

As não notícias

Aliás, a notícia da internação de Paulo Goulart, um dos maiores nomes do teatro brasileiro, não saiu com erro apenas no título. A informação que consta no texto também é daquelas do tipo “não nos responsabilizamos e quem acreditar que o faça por sua conta e risco”. Diz que Goulart “teria sido” internado em agosto.

A fuga à informação precisa é praxe em todo o portal que publicou a notícia (no que, aliás, não difere dos outros). No setor “Celebridades”, o título é “Suposta foto de Kristen Stewart nua vaza na internet”. Bem, ou a foto vazou ou não vazou; ou é de Kristen Stewart ou não é (no caso, seria de uma irmã gêmea, já que é igualzinha). Aquela providência jornalística que resolveria o problema – um telefonema para a assessoria da artista, perguntando se a foto é dela ou não – sequer é mencionada na matéria – ou suposta matéria, como supostamente preferiria o suposto editor da suposta informação.

E há uma terceira não notícia rigorosamente notável, também da internet:

** “Noiva se acha gorda e perde 73 kg em 2 anos”

Se a moça pode perder 73 kg sem problemas, ela não se achava gorda: ela era gorda.

 

E eu com isso?

Que mensalão, que nada! Discursos gigantescos, quando a única coisa que interessa mesmo é o “culpado ou inocente” – e os infindáveis fundamentos jurídicos da resposta poderiam entrar na internet, para conhecimento e debate dos verdadeiramente interessados. A sessão na TV é mais chata que transmissão de jogo de golfe. Então, busquemos as notícias que talvez não mudem muito a nossa vida, mas que pelo menos entrarão na conversa, ao lado da ladroeira do mensalão:

** “Michel Teló elogia cabelo da namorada: ‘Ficou maravilhosa’”

** “Toda coberta, Madonna passeia com o namorado e os filhos”

** “Isis Valverde saiu para beber com as amigas em bar do Rio de Janeiro”

** “De topless, Kate Moss curte praia da Espanha com o marido”

** “Preta Gil faz show com famosos em São Paulo”

** “Leonardo di Caprio se diverte com lagostas em set de filmagem”

** “Filhos Kim Kardashian exibe o corpo num maiô branco”

** “Filhos de famosos esbanjam estilo em festa na capital paulista”

** “Penélope Cruz vai toda de vermelho a première de filme”

** “Loreto e Débora Nascimento se beijam no Rio”

 

O grande título

Semana rica em títulos estranhos. Por exemplo, numa reportagem sobre a onda de frio no estado de São Paulo, um jornal de grande circulação informou:

** “Quem havia guardado o casaco teve de colocá-lo de volta no armário”

E antes da volta do frio, onde será que o casaco era guardado?

Ou, numa importante editoria econômica,

** “País ganha 100 mil desempregados em agosto”

Que presente curioso! Não parece aquilo que Luzia ganhou atrás da horta?

No noticiário sobre as novidades no singular mundo dos modismos, saiu na internet, em portais de grandes veículos de comunicação:

** “Rosquinha ‘injetada’ na cabeça é a nova moda no Japão”

O caro leitor pode não acreditar, mas quem aplica a rosquinha na testa fica mais feio que senador com cueca vermelha para fora do terno.

E, no noticiário policial, o melhor da semana:

** “Suspeito de matar ex degolada pode ter sido coagido, diz defesa”

Ex degolada? Nem aquele ministro que revoga o irrevogável conseguiria revogar a degola. E por que, realizado o inédito feito, alguém a teria matado?

***

[Carlos Brickmann é jornalista, diretor da Brickmann&Associados]

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